terça-feira, 6 de março de 2012

Compras e Casamento em Lisboa

O club-k deixou de ser um meio de imprensa provocador e rancoroso contra o sistema político em Angola para ser uma fonte de informação desejável ao interesse público. Mesmo quando este interesse pode parecer mesquinho diante de coisas muito sérias. Mas o que não seria sério neste país? Ver gente zombando dos seus semelhantes, porque enriqueceram na vida, acumulando imensas fortunas sem provar nunca as origens das mesmas? Ou até convencendo-se do que aquilo que é público pode ser usado com direito de posse individual.



Na distância, como eu me encontro, descobri que o club-k até me faz bem à alma. A razão deste deleite espiritual é simples: minhas preocupações políticas como angolano que sou e pelas particularidades do país onde eu nasci. Uma delas é o velho hábito que se criou em se transformar em proibição e tabu os bastidores da política desta nação que virou escola de corrupção para toda a humanidade.


Lisboa foi sempre o sonho de uma burguesia atrasada e corrupta como a nossa. De lá tudo se importa, desde os desejos consumistas ofuscados pelos primeiros anos de um socialismo real, que mais tinha de mentiras do que realidade; até o noivo, o esposo ou o marido de origem caucasiana, produto de um complexo de inferioridade de que certas criaturas padecem. Passando, claro, pelas inúmeras compras com valores na ordem de milhares de dólares a serem feitas, em fim de semanas ou não, onde só mesmo a TAAG como transportadora, de particularidades especiais que a transforma de um bem público com interesses individuais, tem “competência” para tais serviços.


O club-k, com sua capacidade de revelar o que existe no submundo, já não só dos políticos, mas dos corruptos também, ou destes transformados em políticos, tem nos oferecido as descobertas de manias que se quer instalar como valores culturais de uma classe social. Que no silêncio, e por que não dizer “nos bastidores”, declarou “guerra” aos milhões de seres simples e humildes que ajudaram Agostinho Neto a declarar a independência de Angola.



Com uma certa classe no poder nunca o angolano foi tão vaidoso, obscurantista, cheio de “não me toques” . Nunca na história suas mulheres exigiram tanto deste homem: o homem angolano. Que em tese, nada tem para dar, mas se assume como alguém que tem tudo e pode.


A verdade é que aquele ser “masculino” sempre dá um jeito. Ainda que a oferta ou o resultado do produto vítima da ação de dar tenha que vir de uma “lavra”, de uma “mina de diamante” ou de um “poço de petróleo”. Você, amigo leitor, pensou nas “nossas minas e lavras”? Isto é um sofisma, uma utopia transformada em poesia e utopias são como sorvetes que se derretem em pleno sol de verão. Só servem mesmo para embelezar textos como estes, escritos em forma de prosa; ou ainda muito mais, um belo poema de Agostino Neto. Que hoje nossa “classe burguesa”, com certeza, nos bastidores deve se sentir arrepiada só de escutar aqueles versos, isto é quando não zomba dos mesmos.


A quem acha que os bastidores não constituem notícias de utilidade pública, isto só seria verdade quando lá não se tramassem as maiores falcatruas que vitimam a nação inteira, condenando milhões de seus cidadãos à miséria. Todos os seres humanos têm manias, podem tê-las, até mesmo tentar difundi-las em nome de um certo ego; o que não se aceita é o sustento e a nutrição de certas manias com recursos não declarados; com recursos onde sua forma de aquisição é completamente duvidosa.


E recursos aqui, que fique bem claro, não são só aqueles que vêm do “infinito” orçamento de certas instituições que mais obrigações deveriam ter por velar pelos mesmos. O açambarcamento de recursos, também, é o que diríamos espirituais, é cultuar valores que levam a transformar o cidadão num idiota. Que levam a estes idiotas, simplesmente, a acreditar que qualquer atitudes vinda dos nossos consumidores mais privilegiados está aí para ser aceita como o evangelho de Cristo. E que aquelas atitudes merecem todo tipo de legitimidade.


A verdade é que, a maior riqueza da nossa burguesia, não são os bilhões de dólares públicos redistribuídos em contas particulares, é a legitimidade do MPLA como partido que está há trinta e cinco anos no poder. Esta é a verdadeira riqueza roubada de todos nós. E é com ela que alguns ou algumas tentam impressionar os lisboeta.


Nelo de Carvalho
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