sábado, 24 de março de 2012

Como a Bandidagem Pôs o MPLA no Poder

Luanda é a Capital de Angola e é dessa cidade que praticamente emanou todo poder que o MPLA adquiriu ao longo dos anos para chegar ao trono e manter-se no mesmo de forma vitalícia. Tudo isso, e sempre se justificou assim, em nome da independência nacional e do sonho de se formar uma nação, ou, simplesmente, em nome da Unidade Nacional.



Em quanto estas duas coisas estiveram em perigo, a independência de Angola e a Unidade Nacional, os fins para este partido ( o MPLA) justificaram os meios: até apelar ao bandidismo, que se redimia no momento de necessidades extremas, nos momentos em que este partido mais precisava de se auto posicionar e continuar no poder para decidir sobre os destinos da nação.



Concordo que Angola, até o dia em que Jonas Savimbi morreu, foi uma nação sui generis, em que quem estava no poder precisou apelar a vários tipos de procedimentos para salvar a nação da carniça em que sempre estivemos expostos. O MPLA teve seus motivos para tudo nestes trinta e cinco anos de independência. Motivos que se justificaram porque teve princípios e idéias bem definidos em que quase todos nós acreditamos e confiamos. Por exemplo, são os ideais desse partido que ajudaram a conquistar a independência deste país ( Angola) de maneira unificada; e é com o mesmo ideal que o exército racista sul africano não conseguiu destruir a independência de Angola; e, ainda assim, a Namíbia, o Zimbábue e África do Sul tornaram-se países livres, independentes e democráticos.


O papel do MPLA na história do continente africano é um papel invejável e nos torna orgulhosos, militantes e simpatizantes, assim como aqueles que diretamente dedicaram toda a sua vida a esse partido. Para conquistar aquelas façanhas, de até libertar irmãos africanos no mesmo continente, e defender a dignidade dos povos da África, a mobilização de todos os tipos de recurso sempre foi pouco. O MPLA foi vanguarda em quanto soube defender os angolanos; e com Agostinho Neto em tão não se diz, foi a fase áurea do partido, estava na apoteose que qualquer herói e vitorioso merecia. Bons tempos aqueles!



É uma pena que hoje, por interesses escusos, tudo isso esteja à prova da desonra. Alguém de maneira proposital está jogando fora a história do MPLA, seu passado glorioso, suas vitorias cheias de honra e dignidade que sempre justificaram a motivação dos angolanos em construírem uma pátria para todos. Todos sim: até mesmo aqueles que não se vissem refletidos nos ideais desse partido.


Comecei meu artigo mencionando a cidade de Luanda, cidade onde eu nasci. Mais precisamente entre o Rangel, o Cazenga e o Sambizanga. Conheço esses lugares como as palmas das minhas mãos e os pés que tanto andaram por aqueles musseques. Andei por esses lugares (bairros) de todas as formas possíveis, descalços, roto e faminto. E por uma boa coincidência -sem a presunção aqui do prosista- o MPLA também nasceu, aí, nas mesmas circunstâncias: mendigando o apoio de um povo que precisava se libertar. Aceito um advérbio circunstancial de tempo entre aspas. Afinal, não sou tão velho assim. E na época, esse Partido, tinha a dignidade que qualquer homem honrado sonhador por um mundo melhor, também, tinha. Todo mundo sabe que o MPLA nasceu, se sustentou e sustenta-se nesses bairros. Na verdade, o dito poder que o MPLA tem sempre veio destes bairros suburbanos, os famosos musseques de Luanda. Bairros em especial que Agostinho Neto com sua genialidade e força espiritual dedicou parte de sua poesia. Nada mal para um Grande Poeta como Agostinho Neto e nada mal para as pessoas sofridas destes bairros. Justiça faz-se: para Angola ser o que é: o MPLA precisava nascer nesses lugares. Mesmo porque os bairros aqui mencionados estão cheios de Angolanos de diferentes partes e cantos de Angola. Eu mesmo sou de uma família proveniente do interior de Angola, com ramificações laterais e retas ( familiares), tanto no sul do pais como no norte do país. Em fim, eu sou, simplesmente, um Angolano que tive a “desgraça” ou a “sorte” de nascer em Luanda, mas com muita honra e orgulho poderia ter deixado o meu cordão umbilical em qualquer parte do território nacional.


Um poder atribuído a este Partido de maneira consciente é o que precisamente os moradores daqueles bairros de Luanda o fizeram ao longo destes anos. Quais os motivos de cada um? Ainda que isto não estivesse em suas cabeças de uma maneira sábia e tão racional como queira qualquer especialista em política ou sociologia. O motivo chama-se cidadania e o desejo de se viver num país livre e independente.


O populismo e a apelação desesperada do Partido no Poder em se manter no pódio ( no poder) em várias etapas da nossa história nunca descriminou personagens. A qualidade desses e a gama espectral de seres, que poderia servir de escolha em suas labutas “maléficas” tanto ao Deus todo poderoso ou a qualquer mensageiro de Lucífero”, foi usado de tal forma que assassinos, ladrões, estupradores pudessem se redimir, mais tarde, com a vitória sobre os adversários que o partido no poder tivesse. Os musseques de Luanda forneceram recursos mais do que suficientes ao MPLA, para esse enfrentar a empreitada que Angola pedia por necessidade. As chamadas Guerras de Resistências Populares Generalizadas, uma espécie de guerra de todo povo contra o inimigo adversário, só poderiam ser concretizadas , ter sua vitória e levar o MPLA na apoteose, no pódio do poder, à vitoria glorificante, com uma dita participação popular, se a seus participantes não se lhe exigisse postura cervantina. Ou seja, os cavalheiros andantes que constituíam os Exércitos de Resistências não passariam pelo filtro ideológico do escritor malaguenho.


Em várias ocasiões da nossa história este adversário inimigo era o próprio angolano, os filhos de Angola, transformados em inimigos do seu próprio povo, em inimigos de sua terra, em inimigos de seu país ou nação. Ou seja, a guerra civil fez com que todo e qualquer angolano fosse inimigo de seu próprio compatriota. Guerras protagonizadas pelos personagens que hoje estão no poder e têm representação nos três poderes, tanto do Governo quanto da oposição. Talvez sejam os males de uma nação em formação. Qual mulher, qual útero ou ventre ao conceber a vida não passa por isso: a dor do parto. Afinal, estamos aqui a falar do nascimento de uma Angola.



As chamadas Guerras de Resistências Populares Generalizadas, GRPG, constituem estratégias de caráter político e militar com tom “moralístico” e emocional. Pessoalmente, pelo que cheguei a notar muitas vezes, não passavam de uma apelação étnico, grupal, sem fins patrióticos, com o propósito de neutralizar adversários políticos. Muitos nem inimigos chegavam a ser. Se a definição de inimigo aqui for a aquela retratada pelos militares em campo de batalha.



Mas o que ainda chama a atenção são os efetivos com que aquela guerra (GRPG) contava, e quase sempre, em número e em qualidade, a favor do partido no poder. A qualidade, humana, aqui é de espantar. A bandidagem, literalmente falando, sempre fez parte do exército que precisou aquela Guerra (GRPG). Isto está refletido nas Guerras urbanas de 1974, 1975 e até na infeliz Guerra de 1992. A última dizem que foi em 1993, eu já não tive a sorte de presenciar, felizmente, mas não foi diferente das outras. A verdade é a seguinte: em todas as fases da nossa história quando a crise punha contra a parede duas alternativas possíveis a serem escolhidas, o MPLA se socorreu até a bandidos, grupos armados ou não, que agem de forma marginal e como delinqüentes em tempos de paz, mas que num suposto chamado de salvação a esse Partido fazem parte dos exércitos para selarem o poder e a vitória que este Movimento sempre precisou.


Num passado, talvez, essa forma de agir foi mais do que justa, motivos suficientes existiam. Porque além da ameaça interna, o país sempre esteve a beira de uma invasão externa, em que a reação interna devia ser a primeira a ser neutralizada para depois se enfrentar aquela.

Mas é absolutamente condenável no presente e chega a ser crime de lesa a pátria, fazer o uso das técnicas que ajudaram a organizar e a mobilizar as GRPG para sufocar manifestações e gerar ódio. Seria instigar a guerra. Além disso, a pergunta é a seguinte: uma suposta Guerra de Resistência Popular Generalizada para que serviria, defenderia o quê de quem? Será que, para os defensores de José Eduardo dos Santos, para manterem este no poder, precisamos de uma outra guerra? Quem estaria disposto a morrer por um corrupto?



As imagens retroativas de um tempo em nossa história até 1974 mostram que o poder do MPLA, que hoje tanto, por ingenuidade de alguns ideólogos desse partido, desprezam, está nas ruas. O poder concentrado no topo da pirâmide é a soma do poder diluído em diferentes níveis em direção à base desta pirâmide. E é nessa base ( e/ou níveis) onde seres “infelizes”, mortais, como nós, nos encontramos. É nesta base que se encontram os cidadãos daqueles bairros. O poder não é nada mais e nada menos que a legitimidade oferecida pelos cidadãos que se encontram em diferentes níveis desse poliedro. Este parágrafo tem como propósito contrariar, precisamente, as teses de dois ilustres dirigentes desse partido, Dino Matross e João de Melo. Aquele e este vivem dizendo que o poder não vem das ruas, afirmação negada por nós. O poder vem, sim, das ruas e é de lá, de maneira sangrenta ou não, onde se pode decidir quem continuará a dar as ordens lá em cima.


De vez enquanto, por estupidez e ignorância dos nossos críticos, somos acusados de instigar uma suposta guerra. Ao contrário do que têm nos acusados estamos aqui para nos posicionarmos contra todo tipo de violência, seja ela de onde vier e com que objetivo seja. Ameaças só servem para coibir o direito de protesto e de contestação, coisa natural de qualquer cidadão vendo-se no seu direito de reivindicar.



José Eduardo dos Santos deve sair do poder, mas para isso não precisamos de guerra. Precisamos, sim, do voto livre, democrático e, além de tudo, de um processo transparente e sem vício que nos leve às urnas.



A bandidagem, o espírito de vandalismo, o aventureirismo que muitas vezes transformaram delinqüentes de todas as espécies em heróis, que sejam coisas do passado. Se a UNITA deve pedir perdão pelos seus crimes, chegou a vez do MPLA se redimir diante da nação, mas para isso precisará jogar limpo e se enquadrar no processo de evolução social que exige uma verdadeira democracia. A roda desse processo não pára, é preciso jogar os vícios do passado na lata de lixo, é preciso expulsar, sim, José Eduardo dos Santos do poder, e que os méritos desse último sujeito sejam entregues aos historiadores. Angola precisa continuar a trilhar sem amarras de um passado em que tudo se justificava, até cometer crimes em nome do Estado. A conquista da Democracia é luta de todos os heróis diluídos no meio da população Angolana é a esta gente, com militância ou sem militância, que todos devemos aprender a respeitar. E é dessa gente que vem o poder, é dessa gente que emana o poder do Estado.

Nelo de Carvalho
Nelo6@msn.com
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Um comentário:

José Sousa disse...

Amigo Nelo!
Este seu póst tem muita coisa escrita mas tem pouca verdade!
O MPLA nasceu nos musseques sim, pois era nos musseques onde se concentrava bandidos e injustos. O MPLA é constituido por gente sem escrupulos, gente que é racista e tribalista. O MPLA representa 30% dos Angolanos e foram estes que mataram 2 terços dos Angolanos durante a guerra fria. Conheço todos os Angolanos e os do norte de Angola, que são os que fazem parte, livremente, do MPLA são dotados de maus intuitos, não são sociáveis e olham para os do centro e sul de Angola com um olhar de pouco riso. Se tivesse havido eleições livres em Angola, a UNITA ganhava o poder com mais de 70% e, precisamente, porque o MPLA sabia que perderia nas eleições é que quizeram tomar o poder pela força matando patriotas com a ajuda de cuba e Portugal que entregou logo as armas do seu exército a fim de que tomassem o poder pela força! Mais de 70% dos Angolanos vivem sobre um regime de repressão imposto por um grupo de bandidos. Lembre-se de que que está falando assim, viveu 14 anos no meio de irmão de raça negra e conhece bem os Angolanos, as tribus e os tribalistas. Nunca um agolano da Huila, Benguela, Kwanza-sul, Huambo ou do Namibi votariam no MPLA. Como diz que a UNITA devia pedir perdão, não concordo! Pois se a UNITA matou cinco mil pessoas o MPLA matou vinte mil... e que tal... já pediram desculpas? Mas as desculpas não tem qualquer valor, deve-se evitar é fazer os disparates! Não viram que estavam a matar filhos da terra! Angola só será livre quando o MPLA sair do poder!

Um abraço e vá até o meu:

http://www.congulolundo.blogspot.com