sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

O País das Aranhas XXXV

“Clarivideontologia”

Não me dei o trabalho de pesquisar tal palavra. É deverás uma palavra um pouco estranha, tudo que surgir aqui sobre ela é mais uma outra invenção. Diante da realidade angolana não precisamos desprezar a capacidade inventiva do autor. Tudo o que será dito aqui pode ser uma maneira de encararmos a verdade sem querer nunca reconhecer sua existência ou, ainda, fingir que ela não existe. Ou então fazer da mesma um sofisma, aquilo que jamais alguém alcançara, não importa o esforço usado em tal aventura na busca da verdade. Não é objetivo deste autor, ao contrário, queremos aproximar o leitor, ainda que seja de maneira penosa, o mais próximo possível da realidade e até da verdade. Este autor é obcecado por ela.

A palavra em estudo também pode ser, mais uma vez, invenção nativa, produto da intelectualidade angonlense, que procura sair a todo custo do subdesenvolvimento, acreditando que para isso deve se igualar ao colono, um colono embusteiro que no andar dos séculos não convenceu ninguém da sua suposta evolução.

A palavra talvez tenha origem nas Escolas de ensino de cultura lusitana ou de influências dessas. Geralmente Escolas de mentalidades coloniais que transportam o espírito do complexo de inferioridade típica de um país de gente colonizadas, por colonizadores igualmente atrasados e subdesenvolvidos, que fizeram da fanfarronice espiritual o instrumento de dominação colonial e que hoje ainda vitima uma nação, até na mais alta representação do Poder Estatal.

É a ignorância querendo transparecer, apresentando-se como bajuladora; é a mediocridade que quando já não pode ser rejeitada aproveita a sua chance de se vulgarizar e se prostituir.

Como um fantasma, aquela, a ignorância, querendo se encarnar num corpo estranho e perverso, o corpo da bajulação, que contaminou e contamina cada vez mais a sociedade, a família e o Estado angolano. É a bajulação querendo inventar ao estilo do nativo culto que viajou, estudou, formou-se, conheceu novos horizontes, até a Metrópole Colonial tida como culta e civilizada. É produto importado vindo daquele lugar para agradar o soba ou o monarca nativo. A bajulação parece especiarias da era da intervenção colonial que ajudaram a corromper as autoridades nativas e assim facilitar a intervenção e o domínio colonial.

A “Clarividência” foi promovida pelo espírito da cultura da bajulação. Foi a mesma bajulação que elevou do nada personalidades, de um dia para outro, sombrios ou ensolarados, já não faz diferença, ao parlamento. Surpreendendo os cidadãos que vivem sonhando com atitudes exemplares de seus governantes. A propósito, a falta de exemplos e vergonha são os outros quesitos que tornam a estes em ilegítimos. Talvez seja, a meu ver, essas duas falhas, nada pouco, que acentuam a ilegitimidade de alguns governantes. Pois, mesmo quando se ganha por maioria, simples ou absoluta, não se pode governar com auto-suficiência e arrogância absoluta. A lição vinda dos melhores mestre diz que precisamos contar com todas as forças.

Ontologia, por definição parece ser uma espécie de avatar que blinda certos seres do mundo real, protege-os de tudo, das moléstias que afligem os simples seres mortais, no mundo da miséria e da percepção. Ou ainda, além de seres especiais, torna estes mais seres do que os outros (entre angolanos existe isso: uns são mais seres do que os outros), além de incontestáveis, estão na escala dos preferidos. Uma escala que o mundo real não tem idéia de suas dimensões, eles são porque são e ponto final. Porque a bajulação e a mediocridade assim os definiram. Naquele mundo, da mediocridade e da bajulação, são quase infinitos em todos os aspectos, sem dimensão, e quando se imagina que têm alguma dimensão pode soar a ofensa.

Neste processo de crença inabarcável e incontestável daquele mundo juntaram-se as duas palavras: Clarividência e Ontologia. A primeira chama e funde-se na segunda de maneira implícita. A segunda mesmo sem ser mencionada pelos seus criadores está explícita, afinal qualquer invenção tem o seu produto, nesse caso: processo de não só agradar, mas ocultar aquilo que é inservível e que pode continuar a ter alguma função social –suposta função social; ocultar aquilo que é inútil e que já não compete e nem está a altura.

A fusão das duas palavras, para bem ou para mal, espelha a mediocridade nascida do desespero de se criar qualquer coisa. É também o retrato de uma nação que continua fazendo da cultura um luxo de quem pode, de quem é claro, “vidente” e ontológico. Até nisso existe uma divisão social.

Essas são as coisas inventadas no mundo da mediocridade e da bajulação.


Nelo Carvalho
Nelo6@msn.com
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