terça-feira, 9 de março de 2010

O País das Aranhas XLV

A Luta Contra o Tribalismo não Pode Vir Representado no Oportunismo Político


Li com atenção o trabalho publicado pelo Semanário Angolense, sobre a proporcionalidade étnica no poder executivo angolano. E fica claro que é um tema que nos inquieta a todos nós. O Professor Feliciano Cangue até deu um destaque especial em seu blog. Posso dizer que, mais do que romper um tabu, fingir que o tribalismo não existe - o que notamos-, é que tanto o trabalho publicado pelo Semanário e outras manifestações existente, o que sim existe, com certeza, também, é o que chamamos de agitação tribal com propósitos políticos. Isso, nossos irmãos Kwachas, e a sua chefia penalizado pelo destino da história, Joanas Savimbi, abusava dessa debilidade que enfrentam vários povos ou nações no mundo inteiro. Jonas Savimbi usava mesmo isso como o objetivo de sua guerra; o terrorista, apoiado por Ronaldo Reagan e o regime racista e fascista sul-africano, enlouquecia emocionalmente com os seus discursos carismáticos a etnia ovimbundo com a falsa propaganda africanista de que era seus representantes autóctones. A estupidez era tanta que muito dos nossos compatriotas mesmo sabendo que aquele sujeito era um terrorista cruel, que tinha até o hábito de dizimar seus seres queridos, não hesitaram em segui-lo na sua obra cruel contra a nação. E por mais irônico e cruel que seja, essa guerra protagonizada e desencadeada pela UNITA, sacrificou, muito mais, as pessoas que a UNITA dizia defender: os ovimbundos ou, ainda, os povos da região sul de Angola.

A propósito, surpreendeu-me a posição de Sousa Jamba, aquele Jornalista Kwacha que vive na América fazendo reportagens ou trabalhos para a publicação mencionada. Pareceu-me ser uma posição clara, concisa e para lá de civilizada, para quem milita, precisamente, numa organização partidária conhecida por todos como tribalista, rancorosa, revanchista, revisionista e racista. Sousa Jamba ainda foi longe. E eu concordo com ele: o efeito da desproporcionalidade étnica no poder só será real e visível se o MPLA deixar de cumprir com um dos seus programas que consiste em, por exemplo, tornar prioritário a execução dos programas públicos e o desenvolvimento social e econômico naquelas regiões do país com maior número populacional, independentemente de qualquer etnia ou grupos sociais que residam nesses locais. Ou ainda, na medida do possível, distribuir e incentivar o desenvolvimento social de maneira eqüitativa e proporcional à nível do território nacional. Remeto ao leitor, aqueles que por alguma razão não leram a mesma entrevista dada, que busquem no mesmo Seminário a suposta entrevista. Eu plasmei ao meu modo a idéia de Sousa Jamba. È bem possível que ele não concorde, então arrebato a mesma –com todos os direitos possíveis- e engaveto-a no meu humilde patrimônio.

Já que o problema é romper com tabus então sejamos justos e vamos romper com o mesmo indo em todas as direções possíveis. Eu pessoalmente, aqui, no que for possível, vou falar da minha experiência, sem esquecer que cada um de nós, na pele de Angolanos, tem as suas experiências tribais ou racistas. Nunca fui da UNITA, nem da FNLA ou de qualquer outro partido político, para se ter idéia da minha ausência nesses dois últimos grupos partidários, nem nunca convivi com elementos dessas duas organizações. Como angolano e falando sobre tribalismo, prefiro falar do MPLA que é o partido que melhor conheço. O que sei sobre tribalismo vindo do Partido UNITA tem a ver com os discursos cabeludos do seu falecido líder, das declarações de alguns dirigentes desse partido e da maneira de proceder de seus militantes. E que são maneiras e discursos comprovadamente tribalistas e racistas. Mesmo porque o projeto político da UNITA, o projeto Mwangai, é declaradamente um projeto tribalista e racista.

Na luta contra o tribalismo as evidências, mais do que suficiente, favorecem o MPLA: o MPLA luta e lutou, sempre, contra a divisão tribal do país, o esforço de nação –para que se construía uma nação onde nenhum angolano sinta-se diferente do outro- vem desse partido. E para não falar só dos ovimbundos – que são os que por algum motivo, na boca de algumas entidades políticas e formadores de opinião têm pela mania de se sentirem os mais descriminados e mais nativos e bantus do que os outros – temos os problemas de Cabinda. O MPLA, mesmo com os seus erros, é visivelmente o único partido que tem uma posição definida e inegociável pela Unidade Nacional e contra o tribalismo, e elas são: 1° Cabinda é Angola, não importa quais os termos que Portugal tinha ou teve com relação ao enclave no passado; 2° A Unidade Nacional é inegociável tanto no contexto interno ( Nacional) como no contexto externo ( Internacional); 3° essa Unidade é parte da dignidade do povo e da nação angolana, porque uma vez dividida Angola, ela não teria sentido de existir.

Em quanto o MPLA luta por tudo isso existem indivíduos na voz de alguns partidos políticos e interesses econômicos e políticos que além de atrapalharem esses propósitos são declaradamente contra, pelas suas atitudes.

E como estamos aqui para acabar com tabus vamos mencionar aqui essas entidades: A maioria dos partidos de oposição angolanos, e a própria UNITA, vive destruindo e atrapalhando o projeto de Unidade Nacional que consiste nas linhas um, dois e três mencionada neste texto. Formadores de opinião, descontentes com a política de governança do MPLA, quando já não sabem por onde atacar o governo no poder, usam argumentos tribais – e eu considero isso como golpe baixo- para atacarem o partido no poder, e o próprio presidente José Eduardo dos Santos. Sendo este corrupto ou não significa que a responsabilidade que se deve imputar ao mesmo inclui pôr em perigo a unidade do país? Eu acho que não. Ou seja, a pergunta é: que culpa tem os angolanos de Cabinda ao Cunene se José Eduardo dos Santos é um corrupto, ou mesmo se o MPLA é um partido de corruptos. Não seria melhor, para todos nós, tirar o que há de melhor nesse partido, o que ele tem nos oferecido, que é o de lutar pela Unidade Nacional e manter a mesma unidade, do que usar o oportunismo político de se alcançar o poder destruindo o Princípio Magno de nossa existência: Angola?

Parece que para muitos, políticos e entidades, o ideal de Unidade Nacional arrasa de maneira destruidora seus objetivos de alcançarem o poder ou conquistarem posições privilegiadas no sistema de poder e na ordem política angolana. O que de minha parte acho uma total estupidez e incompetência política desses políticos, partidos e todas as outras entidades que existem por aí; até as famosa publicações privadas oposicionistas que a democracia capitalista reacionária e burguesa, em nome de um civismo democrático, têm gerado e instigado todos os tipos de manifestações discriminatórias. É o que chamamos de um modismo burguês e reacionário, onde em vez de se destamparem tabus, o que se faz é perderem a vergonha e apelarem ao “ vale tudo”. A essas devemos dizer que levantar qualquer polêmica, preconceituosa ou não, para gerar debate nacional é válida. Desde que fique bem claro que o objetivo não é de ir contra aqueles três item e favoreçam de maneira convincente a unidade entre os angolanos em vez de porem mais lenha e fogo na fogueira que os angolanos de boa fé – de Cabinda ao Cunene, sendo do MPLA ou não- tentam extinguir.

Esse artigo não tem objetivos acusadores, ele foi escrito, precisamente, para dar continuação ao debate e romper tabus, pôr em evidência os nossos problemas. Que por certo eles podem estar identificados em todas as partes. E por falar em partes, nesse tipo de caso, é detestável e desonesto cairmos em meias palavras e deixar tudo subentendido.

Há bem pouco tempo tivemos o caso Cabinda onde se perpetrou um ataque fascista, tribalista e terrorista pelos elementos da FLEC contra a nação angolana. Todo mundo saiu criticando os erros do governo e com muita razão. Mas o que se viu pouco foi o repudio direito e rotundo a aquela facção fascista e terrorista apoiada pela França, o próprio Togo, país vítima em escala secundária, deliberadamente ou não, apoiado pelos elementos da UNITA os ex-terroristas ou não, aqueles que viviam massacrando, precisamente, os ovimbundos e outros grupos tribais na época de Jonas Savimbi. O próprio Semanário Angolense vacilou na condena, não entendemos se condenou explicitamente o ataque terrorista ou só se limitou a julgar e a condenar os erros do governo no poder. Pela importância do tema achamos que o editorial escrito pelo seu Diretor Geral, Graça Campos, deveria ser mais explícito, direto, atacando os terrorista de forma contundente e até mesmo fazendo um chamado de Unidade Nacional a nação contra os grupos da FLEC. Já que a mesma publicação mostra estar preocupada com o tribalismo gerado pelo executivo angolano. Aquela atitude de condena não veio explícito em nenhuma de suas páginas. A própria UNITA idem, não houve nenhuma declaração explícita e pública condenando os terrorista, e o melhor ainda apoiando e convocando seus militantes ou não, como maior partido de oposição, para um ato de Unidade Nacional em favor da Nação, fazendo um chamado de Unidade Nacional contra os terroristas da FLEC. A propósito é hora, sim, de alertar. A UNITA que sonha ou pretende um dia governar o país não tem e nunca teve um projeto de nação. Resumindo, o MPLA, mais uma vez, viu-se de maneira solitária -mais vencedor-, nessa luta que deveria ser de todos os partidos políticos e de todos os Angolanos. Falando em Angolanos o club-k foi um dos clubes que mais uma vez, representando a diáspora, cometeu um dos seus erros mais graves. Não fez nenhuma declaração condenando tal atitude. O que ficou evidente a complacência com o ideal terrorista e agressivo gerado nesse clube pelos grupos tribalistas, terroristas, fascistas e racistas que usam qualquer motivação política contra o poder legítimo constituído pelos Angolanos: o Estado, a Nação e o Governo que está enfrente do mesmo Estado e Nação. Não importa se eles são corruptos ou não, o importante aqui é a defesa da Pátria, dos angolanos –de Cabinda ao Cunene. Não se pode confundir a batalha da luta contra a corrupção com o princípio básico de mantermos um país unido em volta daquele mal: a corrupção.

O tabu contra o tribalismo não fica por aqui. Descobriu-se mesmo que constitui uma maneira eficiente de combater o MPLA que está no poder, instigar os espíritos, promover baderna e desacato a autoridade Estatal.

O tabu do tribalismo, bom ou mau, para quem quer que seja fundou a teoria do colonialismo doméstico; que considero ser: A teoria do incompetente, do oportunista e do desesperado em tomar o poder. E por incrível que pareça defendido por algumas publicações nacionais e políticos com pretensões presidências.

A verdade é uma, com o regime democrático supostamente conquistado e que nos livrou da era do regime comunista de partido único, não só levantaram-se os tabus de todos os tipos e formas. Mas nos tornamos -os angolanos-, mais tribalistas, mais racistas, menos cavalheiros, mais corruptos, mais mulherengos e poligâmicos (e até homossexuais também –incrível-), menos patrióticos, mais reacionários até para com as coisas mais simples da vida. E o que sei é que nenhuma sociedade capitalista na fase da terra eliminou o problema do tribalismo, do racismo, da discriminação de gênero ou tudo aquilo já mencionado.

Não será que o próprio tribalismo é conseqüência do tipo de país que se quer construir, imitando-se o mundo afora o que não temos porque imitar? Com uma economia de mercado em que cada um de nós possamos se virar do jeito que quiser e, assim, não temos simplesmente que reclamar do MPLA. Mesmo porque é injusto, já que este é o que tem provado lutar contra todas as formas de discriminação possível. Mesmo na era da democracia burguesa e do regime capitalismo discriminatório, regime que foi aceito há vinte anos atrás com o consentimento de todos. Agora é só agüentarem a pôrrada –como dizem os brasileiros!

Nelo de Carvalho
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