quinta-feira, 28 de abril de 2011

Peixe Podre, Peixe Seco ou Falta de Cultura de Quem nos Dirige

Bem! Errar é humano. Tão humano que até o José errou!

Dissertar, falar e/ou narrar com a função de passarmos a diante aquilo que desejamos, sentimentos, argumentos e até atitudes, é mesmo difícil. Quem é que quando se trata de palavras dúbias, aquelas que às vezes exigem o s em vez de c, em vez do ch o x, em vez do j o g e vice-versa, na arte de escrever, não fez confusão com as mesmas. É bem verdade que quanto mais aperfeiçoarmos os nossos conhecimentos em todas as áreas e cultura menores serão as chances de se cometerem qualquer tipo de erros, incluindo os famosos erros ortográficos e gramaticais.



Em particular, eu costumo dividir os meus erros ortográficos e gramaticais em dois grandes grupos. Aqueles que cometo porque não prestei a devida atenção ou por esquecimento. E aqueles que cometemos, simplesmente, porque não sabemos. Ou seja, faltou cultura, conhecimento e informação. Do meu ponto de vista, os mais humanos e perdoáveis são os primeiros. Afinal, quem não esquece? Quem é que lê e relê um texto, às vezes várias vezes, o texto que “ele” mesmo escreveu e no fim não consegue descobrir o maldito erro. Tudo porque o cérebro está viciado e é pouco critico com aquilo que ele mesmo criou. Mas o erro está lá! Indetectável! Se bobear, “invisível”! Esta é a impressão que temos depois que o mesmo é descoberto. E fica sempre aquela pergunta, “mas porque antes não vi”. O que aconteu!?

E na sua “invisibilidade”- o erro-, pode até estar e ser na frente de todo mundo, e você nada! Se descobrir o mesmo e quando descobrir, já passou horas ou dias. E nesse tempo alguém passou lá ( a vista) e detectou o que você não conseguiu. E o pior, algo que você mesmo criou e concebeu. É como se a criatura – o texto- traísse o criador.


Posso imaginar como José a essas horas deve estar se sentindo. Imagina, se nós que somos um bando de escribas errantes da Web, quase que não nos perdoamos pelos nossos erros e nossos textos pouco lidos. Textos esporádicos, só para expressar revolta, sentimentos, opiniões geralmente compartidas por uma minoria de angolanos, já nos sentimos arrasados quando cometemos qualquer tipo de erro.

Para ser sincero, a descoberta de um erro nessas circunstâncias machuca, fere! Não há nada que console uma alma bem intencionada com vontade de se comunicar e até transmitir aquilo que sabe e acredita que aprendeu bem durante toda sua vida – e aprendeu mesmo!- quando se descobre ( ele mesmo) que cometeu um erro que jamais deveria cometer. Um erro que não está ao seu alcance. Não deveria estar! Mas o fantasma apareceu, como um zumbi que se adapta de todas as maneiras em todas as circunstâncias.


A vida é assim! É dura para todos nós. Desde o simples operário que não teve o privilégio de dotar-se de instrumentos e o grau acadêmico necessário para driblar o mundo das falhas e dos erros que tanto nos martirizam; até o acadêmico ou douto, estamos todos sujeitos a erros, não importa o grau e a maneira como se erra. Uma coisa é certa, a vergonha sempre estará ao nosso lado zombando de nossas falhas.

Agora, imagina você ocupar o lugar de Presidente da República de um país como Angola. Um país de cidadãos “chatos”! E que há anos vivem na flor da pele com a situação instável do país, que quando aprendem um pouquinho a mais da língua de Camões, acreditam que ganharam o direito supremo, universal e divino de infernizar de todas as maneiras possíveis o inculto, o sujeito “analfabeto”, o iletrado, o indígena “atrasado”; que mesmo depois de quinhentos anos de colonialismo português não consegue escrever direito. A repressão dura vinda de todas as partes, por aquele erro, das trocas infindáveis dos “esses” pelos “cês”, das preposições mal colocadas e dos verbos mal conjugados, e tudo que você poder imaginar, neutraliza e anula as boas intenções de quem só queria se comunicar. Nunca se comunicar foi tão difícil! E se adicionarmos mais que na luta pela tomada do poder tudo vale.

Então, comunicar-se é um gesto que poderia ser simples e natural –já não é!-, mas que dependendo das circunstâncias, pode se tornar difícil e tortuoso. E que adversários, sempre preparados a deglutir seus inimigos, estão longe de perdoar. É aqui que o português –a Língua- adota-se mais como um instrumento e arma para degolar “quem não soube aproveitar os anos de colonialismo”. Estamos diante da triste história de um povo que usa um produto e serviço estrangeiro para resolver o que a sua própria cultura e evolução não resolveu.


A triste situação de José chega a ser pior que a turma dos iletrados e analfabetos indígenas, e os autóctones que mesmo depois de cinco séculos não conseguem engolir o português. Infelizmente, José mesmo sendo angolano, deu azos aos rumores mal intencionados sobre a sua origem estrangeira, usado tanto pelos maldosos oposicionistas, de que o mesmo deve ser um inculto com relação à cultura angolana ou mesmo africana. E de que o mesmo pode ter um certo desprezo à condição de se ser autóctone, “aborígene” e indígena.

Aqueles, os intriguistas e de línguas adocicadas com o mal, não se cansam de dar exemplos sobre a rejeição deste com a cultura nativa, chega a ser uma rejeição de alguém dotado de instinto superior com um grau de assepsia elevado. O exemplo começa sempre pela sua governação que dá preferência aos estrangeiros do que aos angolanos; toma-se, também, como exemplo as poucas visitas deste ao interior do país, e os regressos apressados do mesmo à Capital do país quando alguma província tem sorte de ser visitada; a intriga continua.


O que poderia ser visto como uma coincidência e algo muito pessoal e privativo, se usa como manifestação de rejeição daquele que não tem nenhum compromisso com as suas origens e a sua cultura. Esse é o caso de suas lindas filhas que foram no além pátria em busca de cônjuges. Afinal, quem tem amor pela pátria e pela cultura nacional, deveria educar suas descendentes a verem no típico homem nacional angolano a preferência para os seus sonhos de fadas de amor. O que ajuda ainda a fomentar o preconceito de que a burguesia crioula angolana tem um pé aqui e um pé lá na terra dos antigos avós ou pais, vendo em tudo que é nacional o inadaptável aos hábitos burgueses estrangeiros.

No caso de José e suas filhas, coincidência ou não, ele falhou nisso! E a desgraça só aumenta mais quando José é da geração dos grandes poetas que este país já teve. José foi amigo dos maiores poetas angolanos; um deles foi seu chefe durante anos, o outro subordinado, todos eles por destino foram grandes amigos do nosso discursante.


Nós na nossa adolescência e quase infância aprendemos de cor e de bom gosto e agrado a poesia daqueles, dois grandes poetas. Não só por necessidade cultural do momento que atravessamos e em que hoje se atravessa, mas porque seus poemas, no contexto nacional, são verdadeiramente os mais lindos poemas de uma terra de gente sofrida! Em que as vozes dos poetas chegam como um consolo para o sofrimento de nossa gente, povo e nação.

Não saber o refrão do poema mais popular, “O Monangambé”, de Antônio Jacinto ( AJ) chega a ser uma zomberia. Vamos pôr de parte os angolanos em geral ou a nação inteira. É um desrespeito até aos antigos camaradas dos tempos de guerrilha. Afinal, esse poema, se eu não estiver cometendo outro maldito erro ou falha, foi escrito em 1961, em alguma cadeia –sei lá! Ou numa situação de perseguição, desespero e angustia. Se pelo menos o mesmo fosse bem recordado e à altura, na voz do presidente da república, a homenagem ao poeta no dia do Congresso Extraordinário do MPLA, dia 15, seria perfeita.

O poema ( de AJ) e a literatura criada pelos antigos guerrilheiros e intelectuais do MPLA é parte da cultura e do espírito transparente que o MPLA ofereceu a todos os angolanos, a uma nação inteira. Que não devia só servir para que suas riquezas fossem exploradas de maneira descarada por um bando de burgueses, que se consideram crioulos, mas que no fundo constituem uma turma atrasada de incultos. Não merece isso Antônio Jacinto e não merece o MPLA.

Além disso, existe um detalhe interessante, nesta falta de cultura que o Presidente Angolano revelou ao mundo e ao país inteiro. Os que tudo fazem para elogiar a condição humana do sujeito, seus dons e sua biografia, nada reveladora que possam enaltecer algum adolescente ou estudante, dizem que ele é amante da música angolana. Há quem diga mesmo que o mesmo pertenceu ou foi fundador de um grupo musical nos anos de juventude. Ou seja, resumindo, conhece bem a música angolana. O poema de Antônio Jacinto foi musicalizado ( transformado em música) por Rui Mingas em 1975, talvez mesmo antes ou um pouquinho depois. Este poema e música durante dois ou três anos em Angola esteve entre as primeiras paradas musicais no território nacional, chegando a ser uma espécie de hino que relembrava o passado, trazendo do mesmo coisas que o presente e o futuro deveriam corrigir e fazer justiça.

Sendo uma das melhores composições de Rui Mingas e um dos poemas mais belos de Antônio Jacinto, será que nunca despertaram a curiosidade de quem hoje nos dirige? “Amante da música”, “clarividente” e todos os outros dons possíveis que a turma dos bufões da corte aprenderam a transmitir à sociedade e a opinião pública sobre o mesmo. A bufonaria escancarada e a fanfarronice retratam ou outro lado falso do poder angolano e o que existe detrás de tanta falsidade ideológica, que levou o país à guerra e transformou o mesmo num dos mais miseráveis do mundo.

Outro detalhe interessante. Qualquer uma das obras de Agostinho Neto ou mesmo de Antônio Jacinto, ao menos os poemas destes -e que sirva de conhecimento ao nosso Presidente-, pode ser encontrado na rede de computadores, também conhecida como internet. Ironia do destino, essa tecnologia que é tão combatida pelo governo que o mesmo dirige. Era só acessar o GooGle, digitar o nome “Antônio Jacinto” ou a palavra “Monangambé”, que é o título do poema. Lá no Google normalmente encontramos a obra desse poeta e toda sua biografia. Quem pôs lá? É a moderna juventude, estudantes, professores e profissionais das áreas de humanas em diferentes partes do mundo, que fazem o uso da tecnologia por necessidade vital, para sobreviverem, terem uma vida digna; e fazer da nossa existência ( humana) algo mais fácil, menos penoso, harmonioso e razoável.

Assim, para se ser Presidente não basta o glamour das boas aparências. É preciso também amar a vida ( no sentido de amar tudo que vai além de nós); amar o bom gosto vindo do povo e das massas -nem sempre estabelecidas pela burguesia. É preciso ter amor pela cultura – de preferência a cultura do seu povo; despertar o amor pela ciência e à tecnologia, que é o que verdadeiramente tira qualquer povo do atraso.


Depois dos últimos acontecimentos, já deu para descobrir o espírito de quem nos governou ao longo desses trinta e dois anos. Mas sem querer julgarmos e respeitando a condição humana de sermos todos falíveis. A pergunta que cabe é: José cometeu aquele erro por falta de cultura ou por uma falha humana perdoável.

Se continuarmos a pensar sobre as causas do erro, a primeira, com certeza, não resistirá aos nossos argumentos. Terminamos aqui para preservar o que de pouco tem José.


Nelo de Carvalho
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